O episódio final de The Boys saiu hoje de manhã. Cinco temporadas, oito anos desde o anúncio, e uma das séries mais politicamente afiadas do streaming encerrou seu ciclo. E antes que a poeira baixasse, a Prime Video já tinha o próximo passo: Vought Rising chega em 2027, filmagem encerrada, elenco montado, teaser exibido pra quem viu o final no cinema.
O universo não acabou. Ele apenas vai recomeçar do começo.
E é exatamente aí que o problema começa. Porque "recomeçar do começo" é uma das armadilhas mais perigosas que um spin-off pode cair, e a história de derivados de franquias de sucesso está cheia de projetos que acharam que nostalgia e reconhecimento de personagem eram substitutos para narrativa de verdade.
Vought Rising tem os ingredientes certos. A questão é se vai saber usá-los.
O que você precisa saber antes
Eric Kripke anunciou Vought Rising na San Diego Comic-Con de 2024, poucos meses antes da temporada final de The Boys começar produção. O projeto nasceu com uma premissa específica e incomum para um prequel: não é uma história de origem de herói. É um noir de assassinato ambientado nos anos 1950, focado nas origens da Vought International como corporação e em como Soldier Boy e Stormfront construíram a base do que viria a ser o maior conglomerado de super-heróis do mundo.
Jensen Ackles encerrou as filmagens em março de 2026, confirmando no Instagram que foi uma montanha-russa absoluta. Aya Cash também retorna como Stormfront, com a história centralizada numa trama de assassinato nas origens da Vought nos anos 50. O elenco fixo inclui ainda Mason Dye como Bombsight, Will Hochman como Torpedo e Elizabeth Posey como Private Angel.
Além de Vought Rising, a Prime Video também tem em desenvolvimento The Boys: Mexico, com Gael Garcia Bernal e Diego Luna como produtores, ambientado no futuro após os eventos da série principal, totalmente em espanhol. O universo expandido está crescendo em duas direções ao mesmo tempo: passado e futuro.
Gen V, o primeiro spin-off, foi cancelado após duas temporadas em abril de 2026, na mesma semana em que Vought Rising foi confirmado para 2027. Isso não é coincidência. A Prime Video está trocando um derivado que perdeu fôlego criativo por um com ambição narrativa diferente.
O que já sabemos sobre Vought Rising
A premissa é um noir de assassinato nos anos 1950, quando os primeiros Supes da Vought ainda eram figuras relativamente novas no mundo. Soldier Boy aparece aqui antes de a persona hipermasculina e corporativa estar totalmente formada, numa versão mais vulnerável do personagem que Kripke descreve como anterior aos anos de exposição corporativa que moldaram quem ele se tornou em The Boys.
Stormfront, por sua vez, funciona como a principal força antagonista do prequel, com suas ideologias nazistas e a dinâmica racial da época como elementos centrais da trama. Ela opera disfarçada como Clara Vought, esposa do fundador da corporação. Em The Boys, Stormfront era o passado sombrio que a Vought queria esconder. Em Vought Rising, ela é o presente ativo, ainda construindo o sistema que a série principal vai passar cinco temporadas tentando destruir.
Eric Kripke confirmou ao Collider que Vought Rising deve chegar em 2027, com a espera se devendo principalmente ao volume de efeitos visuais em pós-produção, com trabalho previsto até o final de 2026 antes do lançamento global. Quem assistiu ao final no cinema teve acesso ao primeiro teaser, que mostrou Soldier Boy, Stormfront e uma figura misteriosa de traje verde num cenário dos anos 50.
Análise do Tudo Geek
The Boys funcionou por um motivo central que vai além da violência, do humor negro e da sátira política: o show tinha algo a dizer sobre o mundo real e usava a ficção científica de super-heróis como espelho. Capitão Pátria não era só um vilão. Era uma crítica ao culto da personalidade, ao fascismo de fã, ao poder corporativo que protege seus ativos independente do que eles façam. Isso deu à série uma urgência que a maioria das produções de super-heróis não tem.
Vought Rising vai precisar encontrar sua própria versão dessa urgência. E aqui está o perigo real: os anos 1950 são um cenário que convida ao pastiche. Carros cromados, diners, rádio, guerra fria, cinema clássico. É muito fácil fazer um show ambientado nos anos 50 que seja esteticamente satisfatório mas narrativamente vazio, uma série de época bem produzida que parece mais um exercício de direção de arte do que uma história com algo a dizer.
O que me dá esperança é a escolha do noir de assassinato como estrutura central. Noir é um gênero que naturalmente trabalha com corrupção sistêmica, com a ideia de que as instituições que deveriam proteger as pessoas são as mesmas que as destroem. Isso alinha perfeitamente com o DNA de The Boys. Se Vought Rising usar o mistério como superfície e a construção do sistema corporativo da Vought como profundidade real, tem tudo para funcionar.
O que mais me interessa é ver Soldier Boy antes de se tornar o monstro que Butcher encontrou. Em The Boys, Jensen Ackles entregou um personagem que era simultaneamente patético e aterrorizante, um homem que foi ferramenta da Vought por décadas e ficou preso num estado emocional de adolescente prolongado. Ver como ele chegou lá, quais escolhas ele fez ou deixou de fazer, qual versão de si mesmo ele sacrificou para virar o rosto da Vought nos anos de ouro americanos, isso é material dramaticamente rico de verdade.
O problema que Vought Rising vai precisar resolver é de escala. The Boys tinha cinco personagens centrais com arcos de desenvolvimento paralelos que se entrelaçavam. O foco no binômio Soldier Boy e Stormfront pode funcionar, mas vai precisar de uma rede de supporting cast com profundidade real pra não parecer uma história de dois personagens num cenário bonito. O elenco é grande e inclui nomes sólidos como Kiki Layne e Cecily Strong, o que sugere que Kripke e o showrunner Paul Grellong estão pensando nisso.
O cancelamento de Gen V também é um sinal importante de como a Prime Video está pensando esse universo agora. Gen V era uma série que funcionava bem quando conectada diretamente aos eventos de The Boys, mas perdeu identidade própria na segunda temporada. A lição aprendida ali deveria ser que spin-offs de The Boys precisam ter razão de existir além da franquia. Vought Rising tem essa razão: existe uma história específica sobre a origem de algo que o público passou cinco anos vendo funcionar. É diferente de "e se outros personagens jovens tivessem poderes?".
O que esperar
A Prime Video confirmou Vought Rising para 2027, sem data exata. O teaser exibido no cinema após o final de hoje é o primeiro material visual real, e a expectativa é que ele seja lançado online nas próximas semanas agora que The Boys terminou oficialmente. Jensen Ackles também confirmou que a intenção é fazer múltiplas temporadas do prequel, o que significa que o formato não vai funcionar como minissérie fechada mas como uma franquia própria dentro do universo.
The Boys: Mexico segue sem data e com pouquíssimos detalhes além do elenco de produtores. É o projeto mais misterioso do universo expandido e o que tem mais potencial de surpreender justamente porque não tem o peso de expectativa que Vought Rising carrega. O universo de The Boys não acabou hoje de manhã. Ele abriu uma nova porta. A pergunta é se o que está do outro lado vai ter a mesma coragem criativa da série que veio antes.
Recomendação geek
Se você quer entrar ainda mais fundo no universo antes de Vought Rising chegar, a HQ original de Garth Ennis e Darick Robertson é o caminho. A versão em quadrinhos é muito mais brutal e politicamente explícita do que a série, e tem passagens sobre a história da Vought e de Soldier Boy que o show nunca adaptou diretamente. É uma leitura que expande o universo de um jeito que nenhum spin-off vai conseguir replicar.
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E você: prefere que Vought Rising seja uma minissérie fechada ou quer que vire uma franquia própria com múltiplas temporadas?